sábado, 23 de janeiro de 2010

Filósofos na onda

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«Não há factos, apenas interpretações.»
(Nietzsche)


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«As questões sobre “valores” – isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos – estão fora do domínio da ciência (…), estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem “valor”, estamos a exprimir as nossas emoções e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes.
(…)
Quando um homem diz “isto é bom em si” parece estar a exprimir uma proposição, como se tivesse dito “isto é um quadrado” ou “isto é doce”. Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é “quero que toda a gente deseje isto”, ou melhor, “quem me dera que toda a gente desejasse isto”.
(…)
A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da “subjectividade” dos valores. Esta doutrina [o emotivismo] consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer espécie de verdade. Quando um homem diz “as ostras são boas” e outro diz “eu acho que são más”, reconhecemos que nada há para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são desse género, embora pensemos naturalmente que não o são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que a das ostras. A razão principal para adoptar esta perspectiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. (…) Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos que chegar à conclusão que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objectiva.»

Bertrand Russell, “Ciência e Ética”, 1935, trad. Paula Mateus, §10-20.


«Os valores não existem, pelo menos da mesma forma que as pedras e os rios. Considerado à margem dos sentimentos e dos interesses humanos, o mundo parece não incluir quaisquer valores.

(…) As opiniões éticas não podem ser objectivamente verdadeiras ou falsas, porque não existe uma realidade moral a que possam corresponder ou não corresponder. (…) Podemos resumir o argumento desta forma:

1. Existem verdades objectivas na ciência, porque existe uma realidade objectiva – o mundo físico – que a ciência descreve.
2. Mas não existe qualquer realidade moral comparável à realidade do mundo físico. Não existe “lá fora” algo que a ética pode descrever.
3. Logo, não existem verdades objectivas na ética.

(…) É verdade, julgo eu, que não existe qualquer realidade moral comparável à realidade do mundo físico. Contudo, não se segue daqui que não possam existir verdades objectivas na ética. A ética pode ter uma base objectiva de outra forma.
Uma investigação pode ser objectiva de duas formas:

- Uma investigação pode ser objectiva, porque existe uma realidade independente que esta descreve correcta ou incorrectamente. A ciência é objectiva neste sentido.

- Uma investigação pode ser objectiva, porque existem métodos de raciocínio fiáveis que determinam a verdade e a falsidade no seu domínio. A matemática é objectiva neste sentido. Os resultados matemáticos são objectivos, porque são demonstráveis com os tipos relevantes de argumentos.

A ética é objectiva no segundo sentido. Não descobrimos que uma opinião ética é verdadeira comparando-a com uma espécie de “realidade moral”. (…) Descobrimos antes o que é certo ou o que se deve fazer examinando as razões ou os argumentos que, numa dada questão, podem ser avançados a favor de cada um dos lados – é certo aquilo que está apoiado pelas melhores razões para agir. Basta que possamos identificar e avaliar as razões a favor e contra os juízos éticos e que cheguemos a conclusões racionais.»
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James Rachels, Problemas de Filosofia, 2007, trad. Pedro Galvão.

1 comentário:

AF3 disse...

Isto é a demonstração das duas primeiras leis da Filosofia.

São pontos de vista diferentes e ambos bem sustentados.

Eu concordo com a frase de Nietzsche pois para um mesma circunstância podem existir "juízos de factos" opostos no entanto não destoando nenhum deles da verdade, logo são interpretações.